loading
LIVESTREAM

Miguel Lourenço Pereira lança em Espanha livro sobre história dos Europeus

Últimas Notícias

Notícias Mais vistas

Sondagem

Após os primeiros jogos das competições nacionais e internacionais, quem está em melhor forma?

O português Miguel Lourenço Pereira, a viver em Madrid desde 2006, lançou o livro “Sueños de la Euro” (“Sonhos do Euro”), um trabalho que olha para a história dos Europeus de futebol para ver a da própria Europa.
Miguel Lourenço Pereira lança em Espanha livro sobre história dos Europeus

Lançado pela Panenka, que edita uma revista mensal sobre futebol, “Sonhos do Euro” (em tradução livre) é o segundo livro sobre competições europeias deste autor, que em 2013 tinha lançado “Noites Europeias”, com João Nuno Coelho.

Natural do Porto e licenciado em jornalismo, Miguel Lourenço Pereira conta à Lusa que o livro surgiu de uma conjugação de fatores, porque, se é “em parte filho da pandemia”, que lhe permitiu voltar a escrever e também adiou o Euro2020 para este verão, também resulta dessas “Noites Europeias” e de um outro livro que lançou, sobre Mundiais.

Então, era sobre competições europeias de clubes, aqui de seleções, mas “a abordagem é muito parecida”, porque é uma obra “sobre o que é a Europa como continente”, misturando o desporto com economia, política e sociedade.

Seguiu-se um longo período de investigação e viu todos os jogos de todas as edições, desde 1960, com a exceção de dois, dessa mesma edição inaugural, por não estarem acessíveis.

Assim, o resultado é um “casamento constante” do futebol com outras valências, até porque, diz, não entende esta modalidade “como um fenómeno exclusivamente desportivo, mas como o que melhor representa a sociedade ocidental”.

“É o que melhor representa as evoluções que fomos vivendo como povos. O futebol é esse espelho, onde se reveem todas as metamorfoses políticas, a nível económico, a nível cultural, um apartado muito esquecido, e o futebol faz parte dessa dinâmica. É impossível falar apenas dos jogos, estão constantemente interligados”, atira.

Em cada capítulo, o futebol dá as mãos à política de um continente, à sua evolução social e cultural, e vai descrevendo “que Europa era aquela”, do período de apenas quatro equipas, o sonho do seu criador, Henri Delaunay, até ao pós-80, com uma abertura que vai “do impacto da revolução estética das camisolas” no final dessa década, à forma como “o futebol ajudou muitíssimo ao projeto da União Europeia (UE)”.

“Não é um relato jogo a jogo, é um livro de histórias, protagonistas, episódios, coisas que não são muito faladas. É um livro onde se fala de Portugal no Euro84, tanto de Chalana como de Variações, pelo peso na cultura portuguesa que estava a abrir-se depois de tantos anos de fascismo”, exemplifica, lembrando ainda a Irlanda no Euro88, que numa altura marcada pelo IRA mostrou “adeptos alegres, por oposição ao hooliganismo inglês”.

O processo de renovação de Comunidade Económica Europeia (CEE) para UE também se dá ao lado de um Europeu e de uma Taça dos Campeões Europeus, como o ‘desmontar’ do bloco soviético trouxe “muitos países que achavam mais importante aceder à UEFA do que à ONU, porque sentiam que o futebol lhes daria uma legitimidade”.

“Por isso é que há depois a expansão de seleções, a Europa tem necessidade de dar voz a esses países e identidades culturais. É impossível olhar para a Europa e não ver o mapa da evolução do continente que fomos nos últimos 60 anos”, resume.

Para a frente, uma possível segunda edição do livro poderá já contemplar a edição deste ano do Campeonato da Europa, disputado num novo formato, espalhado pelo continente, mesmo que esta tentativa esteja ‘ameaçada’ pela pandemia de covid-19.

O que fica evidente nesta ideia, diz o autor, é “a forma como a UEFA olha para o Europeu”, com uma mudança histórica que foi acontecendo sobretudo no século XXI, com a chegada das novas tecnologias, das redes sociais e a aproximação à própria Liga dos Campeões.

“Com a abertura a mais seleções, ficou claro que a UEFA queria uma festa da Europa. Pode parecer que desvaloriza a competição, mas como o torneio demonstrou, com a surpresa da Islândia, há muita riqueza e muitos países também merecem ser felizes. Deu uma sensação de que os Europeus vão deixar de ser o que foram de muitos anos, a elite, para ser uma celebração continental”, comenta.

O Euro marcado para o verão, de resto, “casa com esse conceito”, por representar, em termos conceptuais, “o derrubar oficial da ideia de que há fronteiras na Europa”, algo que se encontra com o primeiro dos sonhos da prova, de Delaunay, que queria “um torneio num continente permanentemente dividido e em guerra entre si mesmo”, para o unir “à volta de uma bola de futebol”.

O prefácio do livro, de resto, pertence a um homem com muitas histórias no torneio, o espanhol Vicente del Bosque, jogou no Euro80 e ganhou o Euro2012 já como selecionador de Espanha, um “orgulho muito grande” para o português.

“A história do campeonato da Europa também é uma parte da história recente da Europa como continente, e ajuda a entender a sua união. O futebol serve para isso”, escreve nesse texto o técnico.

De resto, a possibilidade de ser editado no país de origem está em aberto, mesmo que haja, sobretudo, interesse no Brasil, através da Corner, e no Reino Unido, com Portugal a ter uma cultura de literatura desportiva “pouco explorada”.

Portugal, de resto, surge naturalmente na obra, seja via Chalana ou pelas várias gerações que comprovam que este é “um país de Europeus”, em algo que vai “culminar no golo do Éder”, corolário de sucesso numa prova “que diz muito aos portugueses”.

Se a vitória no Euro2016 apresenta “um fiel reflexo de um país que nunca deixou de lutar” e “um dos muitos sonhos concretizados” na história do Campeonato da Europa, o Euro2004, que se realizou em Portugal e que viveu intensamente, acabou por ser um torneio que marcou “um ponto de viragem”, da estética e do romantismo para uma perspetiva mais resultadista, um futebol mais físico e um período em que o coletivo acabou por fazer a força, “pela técnica, como a Espanha, ou sacrifício, como a Grécia e Portugal”.

Da sinopse, que cita Paul Auster e o futebol como “milagre que permitiu à Europa odiar-se sem se destruir”, fica uma passagem sonhadora que permeia a obra: “Porque os sonhos de Delaunay, Panenka, Charisteas, Aragonés ou Éder, no fundo, são também os nossos sonhos”.

Siga-nos no Facebook e no Twitter.

Relacionadas

Pode gostar de ler

Na Primeira Página