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Portugal: O otimista quase irritante

Por aí tudo bem: é sempre melhor enfrentar a Croácia do que outro adversário qualquer, até para se retirarem as devidas ilações em relação ao que Portugal pode valer diante de um opositor com outros recursos técnicos e individuais.

Portugal: O otimista quase irritante
FPF

Também há um segundo pilar de otimismo: é positivo verificar-se de que forma a equipa se agiganta, se “passa”, quando está em posição de desvantagem. Por muito que doa, por muito que possa ser um paradoxo, a constatação da desvantagem pode dizer muito do espírito de grupo e de que forma o grupo se revolta ou se torna apático. Componente emocional sempre em cima da mesa.

A dolorosa conclusão vem de trás: Portugal sofreu dois golos da Finlândia, que é uma equipa com muitas debilidades e com um ataque que é facilmente bloqueável. Contra a Croácia é diferente, mas aí os alarmes soaram de forma mais estridente: se Portugal tem problemas em termos de transição defensiva (Palhinha não chega) há também a constatação de que as linhas de pressão ofensiva, quando colocadas perante equipas hábeis a sair a jogar, são sofríveis e repletas de buracos.

Mas a premissa mantém-se. Ver tudo pelo lado positivo. Pelo menos, para já. E, nessa estrada, destaca-se o pensamento de Roberto Martinez: sempre por exclusão de partes. Se um meio-campo constituído por Vitinha, Bernardo Silva e Bruno Fernandes pode ser contraproducente, nada como experimentá-lo agora para se tirarem todas as conclusões antes do espetáculo em si. Imagine-se, por exemplo, que as coisas correm mal e a opinião pública começa a pedir o dito tridente mágico do meio-campo. A partir de agora há sempre o filme croata que tudo repudia.

"Rescaldo do filme croata deve levar a um reajustamento do miolo, colocando na pole-position o nome de João Neves. "

Três elementos com características ofensivas, muito similares e dirigidas à posse, podem desaguar numa carência de elementos à retaguarda, sobretudo quando a pressão alta tem de ser interligada com solidez na cobertura sob pena de desequilíbrio ou, tempestade falando, de caos e de anarquia. Ainda pela positiva, o rescaldo do filme croata deve levar a um reajustamento do miolo, colocando na pole-position o nome de João Neves.

O médio encarnado, na sua astuta capacidade de ligar setores e de realizar a pressão na zona certa, pode ser a peça determinante para que tudo se interligue, ainda para mais quando também é felino a aparecer nas zonas de finalização. No fundo, a busca pelo equilíbrio complicou-se, mas também se simplificou e afunilou. São os benefícios do raciocínio por exclusão de parte e, valha a verdade, mais vale agora do que mais tarde.

O jogo diante da Croácia também serviu para se tirarem conclusões mais individuais. A primeira das quais está relacionada com o facto de Nelson Semedo, por exemplo, valer muito mais do que aquilo que aparenta à primeira vista: pode não ter a capacidade interior ou de explosão dos companheiros de setor, mas a eficiência com que define coloca-o também na dianteira das opções. Porque o simples, tantas vezes, é o melhor amigo da perfeição.

Depois, é pertinente também analisarem-se as linhas de pressão e verificar como as mesmas, com diferentes interpretes – Jota ou Leão por exemplo – adquirem uma robustez diferente, que permite que a criação seja realizada em zonas mais altas (como aconteceu na segunda parte), isto muito embora a Croácia tivesse continuado a fluir o jogo desde trás com a mesma naturalidade. Nesta altura, porém, seria insensato começar-se a pensar em Cristiano Ronaldo e Pepe como figuras sebastiânicas.

"Há lógica, há coerência, mas também há algum risco"

De salvadores da pátria e reconquistadores da solidez outrora perdida. Porque o problema, ou o possível problema, é caracterizado em termos coletivos e de interligação entre todos, e não é solucionável através de “matadores” de inquestionável aura em termos de exploração de zonas de finalização ou de centrais com tremendo manancial de experiência. No fundo, não se trata de dispor a velha guarda. Trata-se, isso sim, de trabalho em laboratório e de voto de confiança ao selecionador: se a estrada a seguir é a da exclusão de partes, que seja por aí. Há lógica, há coerência, mas também há algum risco.

Nesta altura da narrativa, há que saber por onde se vai e com quem se vai. Diante da Irlanda, um novo teste em termos de poderio ofensivo e de desmultiplicação do talento dentro de uma cápsula em que os irlandeses não têm a capacidade de estorvo dos croatas. É lógico que tudo se desconstrói a partir do momento em que se faz a análise do grupo do euro – Chéquia, Turquia e Geórgia.

Neste ramalhete de amigáveis, parece fazer falta uma Bélgica ou Países Baixos. Para se tirarem ilações de como as correções podem ser ou não ter sido realizadas no pós-Croácia. Mas não há tempo para mais: e, às vezes, há que ser pragmático: se ninguém consegue construir uma equipa no espaço de um mês, quem pode criticar um selecionador que vai por exclusão de partes? Doses duplas de benefício da dúvida.

Com caldos de galinha, pois dois golos diante da Finlândia geram aquele cheirinho de preocupação que coloca em sobressalto a armada lusa…

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