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Artigo de opinião de Gil Nunes.

Benfica: Tomás Araújo e a queda do “modelo Jorge Costa”
Benfica: Tomás Araújo e a queda do “modelo Jorge Costa”

A queda dos “Folhas”. Vai à linha e cruza. Agora os tempos são de extremos que jogam por dentro e que são determinantes no processo da transição defensiva. Técnica e desequilíbrio não chegam – veja-se o que aconteceu a Gonçalo Borges e Iván Jaime no pós-jogo do Bodo Glimt. Saem da equipa. Sem pio. Hoje, o futebol aporta novas necessidades e todos os sectores se reafirmam em termos da sua potenciação plena.

O novo paradigma dos extremos traz consigo um conjunto de ajustes indiretos. Como o papel dos laterais, que hoje são verdadeiros alas no processo ofensivo. O tempo do Veloso e do João Pinto já lá vai. No papel atual, os laterais despem a sua farda de fonte de alimentação dos alas para passarem a ser, na sua essência, o foco de alimentação em si. Os laterais são alas. Fazem ou devem fazer todo o corredor para que a equipa, sobretudo quando se trata de uma equipa grande, consiga potenciar todo o seu jogo exterior. Porque os alas, na realidade, dão todo o espaço do mundo que efetivamente jogam mais dentro.

Mais atrás, o tempo do “modelo Jorge Costa” – fiel e robusto guardião do último reduto do impenetrável castelo medieval – também já lá vai. É que, malgrado toda uma carreira ímpar e de inesquecível legado em termos de futebol português, ninguém imagina Jorge Costa a jogar a lateral. Como principal referência da primeira fase de construção. Ou então a ser mudado de sítio constantemente. Como acontece com Gonçalo Inácio.

Porque, atualmente, as linhas defensivas são plásticas e reajustáveis a toda a hora. Veja-se o caso do Sporting: que num ápice tanto defende com três como com quatro ou cinco. E é ver-se Debast (contra o Lille) a jogar como lateral direito e a puxar Quenda para a posição de extremo. Ou então é ver-se Martim Fernandes (lateral) a compor uma linha de cinco e a ajudar João Mário (contra o United) a estancar a hemorragia que pontificava naquele corredor. Só para dar alguns exemplos. De relance.

Em concreto, a troca de António Silva (+ modelo Jorge Costa) por Tomás Araújo (mais flexível) obedeceu a essa premissa. Daí que a sua entrada de início como lateral direito diante do Boavista não tivesse sido ingénua. Aconteceu por dois motivos: em primeiro lugar porque a exibição de Kaboré em Belgrado foi sofrível e perigosa, comprovando-se que ainda não estão reunidas as condições para a utilização regular do jogador burquinense; depois, porque o Boavista serviu de antecâmara (e de teste decisivo) à mudança que Lage pretendia implementar à posteriori – a entrada de Tomás Araújo em definitivo na equipa.

Porque o Benfica de Roger Schmidt tinha, acima de tudo, falta de fontes de alimentação mais salientes. Se, ao nível do miolo, a dupla de médios Florentino – Barreiro retirava um elemento mais participativo na dinâmica ofensiva, a estanque linha de quatro também não ajudava: é certo que Otamendi era, muitas vezes, puxado para a dianteira e para uma zona mais próxima dos médios defensivos para tentar acrescentar a tal clarividência que estava carente no processo de construção. E o papel de António Silva cingia-se mais à proteção da linha defensiva pura e dura, sendo que no Benfica dominador tal papel passa a ser residual. No fundo, os encarnados precisam é que todos ataquem e todos defendam, sobretudo mais à frente. Sem exceção. E ter António Silva no onze, nesta linha de pensamento, representava uma potenciação individual de um jogador que sempre teve um rendimento assinalável mas, por outro lado, subtilmente emperrava um processo coletivo que, numa equipa grande, deve acontecer sem atrito.

A prova dos nove foi apresentada diante do Atlético de Madrid. A entrada de Tomás Araújo permitiu a fluidez dos focos de alimentação ofensiva, o que se refletiu num novo rendimento dos laterais – que no Benfica são e têm de ser alas. Porque, no fundo, não vale a pena projetarem-se os laterais se os mesmos não estiverem devidamente alimentados. Caso contrário entra-se num desgastante processo de desequilíbrio, em que os laterais se extenuam para lá dos limites aceitáveis.

A saída de António Silva da equipa poderá, por seu turno, ser mais um “até já” do que uma perene chamada às boxes. Em primeiro lugar, pelas próprias razões inerentes a um contexto de jogador cujo valor de mercado é superlativo e não deve ser desaproveitado; depois, porque um António Silva em forma é bem mais eficaz do ponto de vista da marcação do que Otamendi, o que pode indiciar que o regresso à equipa poderá estar definido para o lugar de um central argentino que, feitas as análise de desempenho, até é dos pontos mais débeis da equipa.

É lógico que ter uma defesa composta por Tomás Araújo (22 anos), António Silva (20 anos) e Álvaro Carreras (21 anos) é um risco que Lage, até pelo seu passado no clube, não quer correr no imediato. Mas que é menino para isso, lá isso é. Seja como for, a prioridade passa pela cimentação de Tomás Araújo, cujo impacto não passa à margem de um selecionador que, também a nível da equipa das quinas, pretende rapidamente montar uma defesa composta por jogadores flexíveis do ponto de vista tático. Sai Gonçalo Inácio entra Tomás Araújo. Sem qualquer tipo de hesitação. E, no futuro, o mais certo é até estarem ambos na convocatória nacional.

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