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Portugal: BB e o triunfo dos porcos

Artigo de opinião de Gil Nunes.

Portugal: BB e o triunfo dos porcos
Federação Portuguesa de Futebol

Há algo que é unânime: a derrota de Portugal diante da Eslovénia não teve significado nenhum e, pedagogicamente falando, até é positivo “testar” a equipa numa situação de desvantagem ou, também, perceber qual o seu alcance quando a derrota bate à porta. Até porque não há equipas incentiveis nem o Portugal de Martinez passou a ser o Manchester City das seleções.

Já dizia George Orwell, no “Triunfo dos Porcos”, que “todos são iguais, mas uns mais iguais do que os outros”. Na Eslovénia, a narrativa afinou pela mesma conclusão: há Bernardo Silva e Bruno Fernandes (os BB) como membros de uma cúpula exclusiva, que faz todos os demais girarem à sua volta. E há, logicamente, o reverso da medalha: o bloqueio ou a ausência da cúpula provoca a deterioração de todo o sistema, isto muito embora o Portugal de hoje seja como o dólar: instabilidades à parte, sempre uma moeda forte. O triunfo de Martinez.

Por falar em moeda, o jogo da Eslovénia trouxe uma dupla face. A cara: por um lado testar “a malta” dentro de um espectro em que os “BB” não estão presentes. Por aí, apostando numa construção com três centrais (leia-se também Danilo) e com o auxílio da derivação de Cancelo para o meio, a equipa bem tentou sair pelo meio, mas nem Vitinha nem Otávio conseguiram canalizar o jogo de forma confortável para zonas mais propensas ao perigo, sendo que a alimentação dos corredores também tem de ser obrigatoriamente providenciada. E a coroa: é necessário testar a equipa sem os “BB” mas tal também representa a constatação por parte dos adversários de que Portugal tem uma dependência clara nos dois jogadores e na imprevisibilidade que colocam ao jogo. Sendo que o contra-argumento pode ser que todos já tinham percebido, só que o filme ainda não tinha sido exibido nas salas de cinema.

Daí até à leitura do contexto: a seleção portuguesa continua a possuir uma matriz predominante ofensiva, quer expressa num arrojado 3x2x5 a atacar quer definida numa procura contínua pelo avassalamento do adversário. Seja como for, diante da Suécia houve um fator de preocupação: os dois golos marcados pelos nórdicos advieram do destapamento do flanco esquerdo, na sequência de uma falta de cobertura daquele setor em específico no carrossel da circulação de bola. Não é grave nem vem nenhum mal ao mundo. Mas tal entronca no discurso de Martinez: ainda há muito trabalho a fazer sem bola, sendo que o “com bola” está naturalmente relacionado com tudo o resto. De forma simples, definir quais as melhores zonas para se perder a bola, tornando esse espaço mais vulnerável e complicado para o adversário explorar.

É evidente que todo este sistema pode ser resolvido à posteriori. Com treino. Afinal de contas, uma seleção não é um clube. E, se o cimento demora tempo a ser colocado, também demora tempo a secar. E a solidificar. Daí Martinez também estar certo quando alega que os jogos particulares são essenciais não pelos resultados obtidos, mas antes pela maciça recolha de informação. E, sobretudo, pelas últimas vagas no autocarro com o produto diferenciado a ganhar particular relevância: convocar Francisco Conceição significa, sobretudo, trazer um aporte diferente em termos de desequilíbrio em espaço curto, sobretudo assente num grupo (Chéquia, Turquia e Geórgia) em que Portugal assume claro papel de Golias e, por conseguinte, a tendência dos adversários será a de recuar os blocos e estancar o poderio luso.

Há ainda questões que têm de constar do bloco de notas. O facto da construção a três resultar melhor com Nuno Mendes do que com Danilo e Palhinha recuando para a posição de central; a obrigatória presença de Rafael Leão como principal eixo de desequilíbrio e a sua bem sucedida relação quer com Dalot (que o puxa para a ala) quer com Mendes (mais para dentro); e, agora sim, o que pode representar a presença de Cristiano Ronaldo num eixo de ataque em que Gonçalo Ramos parece ter melhores condições.

É que a estante só tem onze prateleiras e não há espaço para todos. É claro que pode ser argumentável que não houve um teste direto entre CR7 e Ramos. Nem tem de haver. E também existe a ressalva de que Ronaldo jogou num contexto tático de tubo de ensaio, menos consolidado e sem os alimentadores “BB” a fornecer a energia elétrica. A questão é que, atualmente, a enciclopédia de Ramos é mais vasta e mais benéfica: condicionamento das zonas de pressão, ataque à primeira bola e recuos estratégicos para alimentar o miolo suplantam, numa primeira análise, o quadro de golo puro que Ronaldo oferece de forma indiscutível e superlativa.

Todavia, há que ir por partes: perceber que a ideia de quatro defesas ganha forças para a fase final do europeu e que a multiplicidade de soluções ofensivas deve prevalecer como fator puro de força e como criação de divisas surpreendentes para os diferentes adversários. E o desafio de se gerirem os egos: porque uma coisa é uma qualificação tranquila e um conjunto de particulares em que quase todos são chamados à ação. Faltam dois capítulos nesta história: o que é ilustrado com desenhos de tubarões; e um outro em que os vilões mordem mesmo: jogos do europeu distintos de tudo o resto.

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