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FC Porto: Singularidades de uma equipa jovem

Artigo de opinião de Gil Nunes.

FC Porto: Singularidades de uma equipa jovem
Liga Portugal

Foi uma boa arbitragem na Amoreira ou não foi uma boa arbitragem? Eis a questão. Ou, por outras palavras, novamente a essência do VAR como muleta dos juízes e não como instrumento de auxílio à boa tomada de decisão. Se não há machado que corte a raiz ao pensamento, também não pode haver máquina que substitua o firme critério do homem. O passado já provou que não a filosofia não pode ser pontapeada.

Referi, na altura do FC Porto – Arouca, que se o árbitro entendeu (até de forma errada) que Milovanov cometeu grande penalidade sobre Taremi, deve manter a sua decisão de forma incondicional. Até por uma questão de credibilidade do próprio: no fundo mais vale errar pela própria cabeça do que ser um outro (no caso uma máquina) a decidir por nós, mesmo que as imagens evidenciem um diferente desfecho ou, no caso recrudescido da primeira volta, uma pretensa simulação.

É claro que há regulamentos a cumprir e não deve prevalecer a selva. Dura lex sed lex. No entanto, a reflexão sobre o VAR impõe-se e as medidas daí provenientes também. Precisamos de ação e precisamos de ação já. Se conseguimos evoluir ao ponto do árbitro comunicar ao público a justificação da sua decisão, também conseguiremos evoluir no sentido de, por exemplo, se definir uma margem de tolerância em relação ao fora-de-jogo que impeça golos invalidados por um centímetro; ou, também, podemos ser mais maduros e definir claramente a autoridade do árbitro como eixo predominante em relação a tudo um tecnológico resto. Sem pontapés na filosofia.

Voltando ao jogo, pareceu claramente que Mangala cometeu grande penalidade sobre Francisco Conceição. E que o camisola 10 dos dragões foi exageradamente expulso na sequência de um gesto precipitado que, valha a verdade, não era o suficiente para justificar nova exibição do cartão amarelo. Mas analisar o FC Porto no reduto do Estoril é ultrapassar todo esse quadro e tentar alcançar um pouco das profundezas do oceano de uma equipa extremamente jovem e que ainda tem problemas para resolver. O principal dos quais chama-se ansiedade, característica que se refina com a maturidade e que se exponencia quando a mesma maturidade ainda não foi atingida.

Como é que o FC Porto bateu o Estoril, até de forma fácil, no jogo da Taça de Portugal? Por quatro? Porque marcou cedo (leia-se marcou cedo acima de tudo) e na sequência de um movimento – bola longa nas costas da zona central da defesa – que, desta vez, não apanhou os canarinhos desprevenidos. Mas o problema não é tático nem remonta ao plano de jogo: porque os dragões – fosse pela envolvência dos flancos, fosse pela subida dos médios para zonas de tiro ou fosse mesmo pelo recuo estratégico de Evanilson e derivação de Pepê – tinham mais do que argumentos para fazer do Estoril presa fácil e vencer o jogo. O que não aconteceu.

No fundo, o que é que emperrou o jogo dos dragões? A sofreguidão. A ansiedade. O cronómetro e o seu avanço. Sim, porque podemos ter uma mão-cheia de argumentos para desmantelar o adversário, mas tudo pode ruir se não tivermos o controlo emocional e a sensatez de perceber que os jogos se desembrulham, naturalmente, quer ao minuto oito quer ao minuto oitenta. Há que ter paciência e, sobretudo, não entrar em parafuso com a perspetiva sombria das coisas correrem mal quando, independentemente do marcador a zero, o mais natural é a finalização aparecer e o jogo tornar-se mais um do calendário dos três pontos. Tal aconteceu, por exemplo, também em Barcelos. Tanto quis o FC Porto fechar o jogo que acabou enrodilhado numa espiral nervosa que desaguou num novelo de pequenos erros que culminaram no golo do empate ao cair do pano.

Na Amoreira, na segunda parte, apesar da pressão continuar mais efetiva nem tudo foi a mesma coisa. Tic tac do relógio a dinamitar a cabeça dos jogadores: muito maior exposição à transição ofensiva adversária; ansiedade refletida nos pés de um desinspirado Galeno, ou naquele passe que deveria ser finalização ou vice-versa. Pormenor a sobrepor-se ao plano de jogo, ansiedade como nuvem de todo um desfecho que até tinha tudo para ser o contrário. De forma fria, pegando no contexto e no plano de jogo, o FC Porto teve todas as condições para sair da Amoreira com os três pontos. E para resolver o jogo atempadamente.

Não se pode dizer que o mundo dos dragões está solarengo e que o cenário está espetacular. Não está. Continua a ser certo que o Benfica está cambaleante e o mais provável é perder seis ou mais pontos até ao final da corrida. Mas agora passamos a ter outra quase certeza: que o FC Porto se mentalize e adapte ao facto de, na próxima temporada, muito dificilmente estar na Liga dos Campeões. E a melhor forma de resolver um problema é mesmo encará-lo, mas com o otimismo sempre presente.

Basta ver o filme novamente. Seria lógico ser o líder incontestado da liga portuguesa a conseguir fazer frente ao primeiro classificado da liga inglesa. E não o terceiro classificado que está afastado das contas do título. É este o principal problema da ansiedade: tudo turva e faz da matemática uma ciência mentirosa. Seja como for, há sempre o positivo da questão: tempo para se planear a próxima temporada com uma premissa bem presente: em equipa jovem e com potencial não se mexe. Custe o que custar. Haja o que houver. Venha quem vier. Porque o dragão deste ano pode não vir a ser rei mas, se mantiver a calma, deslumbrará sempre a luz do outro dia.

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