
Artigo de opinião de Gil Nunes.
Numa altura em que um dos assuntos do momento é o facto de Quenda não ter batido o recorde de Paulo Futre como jogador mais jovem a ser internacional, há outro elemento que deve ser sempre lembrado: Renato Sanches e a sua preponderância na conquista do euro 2016. Na altura, com 18 anos. Porque, honestamente, não interessa se “a” ou “b” bate ou não o recorde “x” ou y”. Interessa, isso sim, que a seleção continue a possuir sempre uma porta aberta para a presença dos diamantes, mesmo que tal acarrete uns justificáveis salpicos de risco.
Falar de Renato Sanches é, sobretudo, falar de um jogador diferenciado no rol das suas características. O dito selvagem. O tal que, às custas das suas arrancadas, provoca terramotos no jogo e proporciona um conjunto de valências ao nível das transições ofensivas que estão ao alcance de poucos à escala global. No euro 2016, bem como na altura dos seus primeiros tempos com a camisola do Benfica, ficou patente outra característica: uma excelente capacidade de tiro, patente num memorável golo apontado diante da Académica, e no célebre golo que empatou a partida nacional frente à Polónia. Só para dar alguns exemplos.
Mas Sanches é também um palácio de cristal. A sucessiva onda de lesões atrofia o seu desenvolvimento, ainda por cima num determinante período de consolidação das suas características naturais em torno de um contexto de maturidade que, acima de tudo, possibilita ou possibilitaria uma abordagem ao jogo adaptada a um período posterior em que o arranque naturalmente decairá em prol de novos posicionamentos menos desgastantes. Mais maduros. Até porque não se está a falar de nenhum jogador desprovido de técnica: Sanches é evoluído. Não é nenhum pino.
Seja como for, o regresso ao Benfica justifica-se e por dois motivos: em primeiro lugar porque, malgrado mística ser diferente de ter elefantes na sala, o regresso de um jogador dos escalões de formação é sempre uma positiva acha para a fogueira do benfiquismo; depois, porque caso recupere em conformidade, a capacidade de Sanches rapidamente desaguará em alto rendimento, muito embora se ressalve que o jogador chega à Luz no tal momento de ajuste tático – 27 anos.
Se esta é a altura certa para se lesionar? Ou para se “relesionar”? É certo que o Benfica necessita de muitos ativos para assegurar a rotatividade necessária, até porque as contas da Liga dos Campeões precisam de ser ajustadas e fortalecidas. No entanto, a sequência Bayern de Munique – Porto já lá vai. É que era absolutamente imperativo, quer pelo atraso pontual quer pelo contexto de uma liga carente em termos de equipas de classe média, ao Benfica vencer os dragões, pelo que o embate diante dos bávaros ficou justificadamente para segundo plano. Mas agora não será bem assim. Até porque não convém mexer muito num tridente – Florentino, Aursnes e Kokcu – que tão bem desempenhou as suas funções diante dos dragões, sobretudo no condicionamento das saídas de bola e pressão alta. Sendo que, para os lados do Benfica, também nem sempre se jogará assim.
Se calhar, a resposta é sim. Acima de tudo, perceber que Renato Sanches dificilmente recuperará o estatuto de estrela em ascensão do futebol mundial, mas que ainda assim poderá ser um ativo muito importante dentro da esfera encarnada. Ou, por outras palavras, está nas mãos certas – Bruno Lage – para efetuar essa mudança de paradigma e tornar-se num jogador mais versátil dentro de um miolo encarnado que, efetivamente, também precisa de Sanches e das suas características para atingir novo patamar de desenvolvimento. Veja-se o que aconteceu diante do Feyenoord.
Sem correrias nem atropelos. A médio-prazo. Sempre pensando na recuperação efetiva do jogador e tomando as lesões como situações de circunstância e nunca como hábito. É que nem é pelo dez milhões de euros de opção de compra. É mais pela garantia de que se vai realizar uma compra adequada de um ativo particular e com capacidade para se tornar num ativo e numa solução regular.
Até porque do Benfica à seleção é um salto, e seleção que se preze precisa sempre de produtos diferenciados. Basta lembrar o que aconteceu no Portugal-Sérvia de 2021. A turma das quinas, completamente manietada por uma competente estratégia, só teve eixo de saída para o ataque nas violentas cavalgadas de Sanches, que por pouco não colocaram Portugal diretamente na fase final do mundial.
Porque o facto de se ser o dito jogador selvagem também traz esse benefício: na altura do sufoco, do domínio exercido pelo adversário, uma das respostas imediatas pode passar pela transição abrupta, que faça o sistema respirar e o reposicione taticamente. Mas não que um elemento como Sanches deva ser definido como solução de emergência. Por aí nunca. Agora, se esse chip também está instalado no sistema, nada como mantê-lo intacto não vá algum poderoso adversário tecê-las. Sanches vale sempre a pena.