
Artigo de opinião de Gil Nunes.
Cessa hoje, de forma amigável, a minha colaboração com o Futebol 365. Agradeço, de forma sentida, a todos os leitores me acompanharam durante os últimos catorze meses. Novidades para breve!
Já o FC Porto não termina a sua participação na Liga Europa mas é tempo de se ter alguma cautela. De facto, a participação não tem estado ao nível dos pergaminhos do clube e, sobretudo, advém de um estado híbrido que é reflexo da mudança de treinador. É um FC Porto de hiatos. Se, por um lado, Vítor Bruno tentou transformar a equipa numa ofensiva máquina trituradora, por outro lado a solidez da componente defensiva (transição sobretudo) ficou esquecida num cenário em que nem se aquece nem se arrefece. E o FC Porto tem de ter um rumo. Por aqui ou acolá. Com a questão da juventude do plantel a servir de legítima atenuante. Mas até um certo ponto.
Na Bélgica, o filme do jogo quase que ficou exposto na primeira jogada do encontro. A saída de bola (com três na retaguarda), com o miolo exponenciado para a ala esquerda, até que estava bem pensada mas esbarrou numa plataforma de impaciência que só não deu golo do Anderlecht por milímetros. De facto, precisa-se de liderança. Precisa-se de um novo Jorge Costa mas não no banco. Porque a bola pica nos pés dos jogadores, quase que inconscientemente levados ao passe certinho e que, pelo menos, não vai acarretar riscos de desintegração do coletivo.
As alterações no centro da defesa foram justificadas. E não assentam nem na própria qualidade individual dos jogadores em si nem tão pouco na dinâmica básica de afinação em contexto de treino. Por aí Sérgio Conceição tinha razão: a potenciação de um jogador em laboratório leva tempo, e leva tempo sobretudo pela absorção das respostas mais válidas em relação a um almanaque de possíveis imponderáveis que podem acontecer durante o jogo. É claro que recolocar Otávio na equipa (que oferece saída com o pé esquerdo) é legítima mas tal não representa um atestado de incompetência a Tiago Djaló: representa, isso sim, a perceção de que uma linha defensiva com apenas duas alterações em relação à temporada passada (Moura e Nehuén) tem uma maior probabilidade de solidez em comparação com uma linha totalmente renovada. Por muito que a nova linha até possa servir num contexto básico de jogo de computador.
O FC Porto de Vítor Bruno ataca mais e quer meter mais gente na zona interior. Daí a insistência em colocar Fábio Vieira na equipa, sobretudo depois de um jogo diante da Lazio que, muito embora o resultado não tivesse sido o esperado, representou um passo acima em termos exibicionais. E, malgrado a instabilidade pontual, os dragões produzem mais e com maior regularidade. Diante do Anderlecht, o regresso aos 4x3x3 pretendeu solidificar o miolo e estancar a hemorragia patente ao nível da transição defensiva. Seja como for, João Mário voltou a ser macio em todas as abordagens, algo que retraiu um pouco um conjunto de dinâmicas que, para além da solidez, aportam a necessidade de possuir um jogador apto em termos de zonas condicionadas como é o caso de João Mário.
Nas alas, também outra questão se alevanta: depois da Noruega, percebe-se a necessidade de Vítor Bruno em colocar em campo Pepê e Galeno, os dois alas mais aptos em termos de processo defensivo. Isto para além de Galeno permitir, entre outras questões, uma efetiva primeira saída de bola a partir do guarda-redes. Mas em 4x3x3 novo fenómeno híbrido se constrói: se Galeno necessita de espaço para aportar desequilíbrio, Pepê tende muito para dentro o que, no caso, provocou uma confusão generalizada num meio-campo povoado pelo tridente Varela – Eustáquio – Nico. E, claro está, toda esta pequena desarmonia faz carecer as fontes de alimentação a Samu, ele que é temível em termos de exploração de zonas de finalização dentro da área.
Vítor Bruno tem razão quando alega que tem tido pouco tempo de treino para resolver os problemas. E outra nota favorável ao treinador: bem ou mal, certo é que o FC Porto readquiriu a vantagem no marcador a partir do banco, com o inevitável Fábio Vieira a oferecer o salpico de criatividade de que a equipa carecia, e Gonçalo Borges a aportar algo que lhe era característico no início da temporada: a velocidade de ponta no corredor, que só por azar não deu golo nos últimos momentos.
É certo que as vitórias vão regressar e a própria aura de Vítor Bruno será recuperada. A tendência é para melhorar. Até porque se nota que os jogadores estão com ele e os sinais não são propriamente de cataclismo da equipa. Nestas coisas também dá jeito ter um Presidente que foi treinador: sim, tem de chamar a atenção. Mas sim, também percebe como ninguém a raiz e a natureza dos problemas que estão associados à equipa. E que a dinâmica do tempo tende a trazer novamente o sol.