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Portugal: Recordes leva-os o vento

Artigo de opinião de Gil Nunes.

Portugal: Recordes leva-os o vento
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Dizer que o jogo não permitiu que se lançasse Geovany Quenda é discutível, sobretudo numa segunda parte repleta de desacerto e onde uma nova clarividência no flanco direito se justificava. Ou seja, à luz do racional e sendo que o racional quer lá saber se tem muitas ou poucas internacionalizações, a entrada em cena de Quenda até teria feito sentido. Mas a seleção nacional não existe para se quebrarem recordes. O selecionador tem toda a razão: em Lisboa ou em Split, fez o que lhe competia.

Geovany Quenda não foi a Split ver o Palácio de Diocleciano nem tão pouco a sua viagem foi uma perda de tempo. Muito pelo contrário. Um jovem de 17 anos, que galgou escalões de formação com todo o mérito para almejar um estatuto ao alcance de poucos, só tem a ganhar ao entrar nas contas da comitiva e beber de um contexto de seleção que é particular e único. Esse é o principal legado. Depois há o acessório: se bate ou não o recorde de Paulo Futre – o mais jovem internacional de sempre – é supérfluo tendo em linha de conta o maior dos desígnios que é o desempenho da seleção nacional. E o seu objetivo máximo: o Mundial com passagem pela Liga das Nações. E, por aí, nada a dizer.

Até porque Quenda é um jogador profissional. Ponto. Se é profissional tem de arcar com desilusões, frustrações e uma amálgama de sensações que fazem parte deste mundo. Como também vai acontecer o contrário: não faltarão alturas em que vai jogar minutos a mais numa altura em que deveria ter saído do campo mais cedo. E, acima de tudo, a compreensão deve ser geral: se bem que as críticas em relação à não-utilização de Quenda sejam legítimas e democráticas, é preciso realçar que cada crítica é uma acha numa fogueira que já deveria ter sido extinta. A bem do próprio Quenda. E do seu processo de desenvolvimento.

Em Split, o jogo teve outro interveniente particular. Que deu pelo nome de João Félix. É claro que na seleção nacional não falta nem talento nem abundância do mesmo, mas a capacidade técnica que apresenta leva a crer que merecia mais minutos. Ou não, em face de uma regularidade que é necessária de manter ao longo de todo o encontro. Seja como for, a reflexão sobre João Félix afina por outro diapasão: que dá pelo nome de paciência. A forma como apresenta um cardápio de soluções mágicas que faz com que cada adversário seja desbravado como se manteiga fosse oferece, no imediato, uma justa dose de tolerância que seria inimaginável noutro elemento que não dispusesse dos mesmos argumentos técnicos. E depois há a questão do pós-Ronaldo: de forma evidente, João Félix é mesmo aquele que dispõe de melhores condições para acrescentar o toque de Midas no momento de maior sufoco ou carência. Daí que, no caso de Félix, a paciência seja justificada. Até porque quem recebe uma bola longa, na passada e com reçeção orientada, e marca um golo daquele calibre tem mesmo aquele “quê” de inexplicável que motiva um tratamento especial. Ou diferenciado.

Na Croácia, a verdadeira seleção foi a da primeira parte. Portugal 45 minutos. Num cenário em que, mais uma vez, despontou a dupla Nuno Mendes – Leão como pilar essencial de toda a estrutura, a principal notícia residiu na excelente exibição de Vitinha como médio-defensivo. E não que seja uma solução duradoura ou permanente. Não é por aí. A questão reside mais a montante: nas ausências de João Palhinha e de Rúben Neves (sobretudo este último), o miolo português só adquire clarividência na construção quando fica munido de um elemento com capacidade para pensar o jogo com antecedência ou para definir linhas de passe que capitalizem zonas mais adiantadas da equipa de forma automática. Até porque os últimos jogos da seleção dão conta de uma nova nuance que muda a direção do astrolábio: a performance de Pedro Neto no flanco direito, e a construção de uma nova sociedade com Diogo Dalot. Foi por aí que também se encontrou o melhor Portugal. E o verdadeiro enquadramento do pensamento Roberto Martinez: mais do que ganhar à Croácia ou ver se este ou aquele elemento merecem mais minutos ou internacionalizações, interessa reter o pensamento de puzzle que reconstrói uma equipa e a prepara para a longa odisseia do Mundial. Porque, na cabeça de Martinez, a Liga das Nações é apenas um laboratório. Para o que segue.

Daí que a segunda metade em Split tenha lembrado o que se passou na Eslovénia, semanas antes do europeu. Mais do que tentar perceber as caraterísticas de Fábio Silva, interessa tentar perceber se o avançado, que até tem um perfil particular, pode ou não ser convocado com regularidade ou se será mais um para a gaveta dos epifenómenos. Ou qual o perfil de Leão quando este tem de deixar a faixa e percorrer zonas mais centrais; ou então perceber se João Cancelo consegue fazer de Dalot no novo desenho (parece que não) e de que forma se revitaliza o flanco direito (ofensiva e defensivamente) quando Pedro Neto não está.

Acima de tudo, a segunda metade foi um bloco de notas. De sublinhados e de rabiscos. Fundamental num selecionador que vive muito da lógica da exclusão de partes. Só sei que não vou por aí. É claro que a real prova dos nove de Martinez só será efetuada em contexto de fase final de grande competição. De qualificações não reza a história. Agora, o que se pode dizer em defesa de Martinez é que, pelo menos, há e houve sempre um caminho lógico. Por acaso ou por fetiche, lá que o selecionador pensa pela sua cabeça, lá isso ninguém o pode negar.

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